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Divagações
O correr dos anos
E cumpriu-se mais um aniversário na minha vida.
Esta coisa de fazer anos, vai assumindo diferentes valores e significados ao longo do meu percurso por estes lados do planeta.
Começou por servir de desculpa aos meus progenitores e seus amigos, para beberem uns copos, e ainda por cima queriam que eu fosse uma espécie de macaquinho de imitação, não me deixando sequer descansar, num dia que supostamente seria meu de direito e no qual poderia fazer o que me desse na gana.
Depois fui crescendo (raio de sorte), e o dia passou a ser aguardado com um misto de ansiedade, alegria e angústia.
Ansiedade provocada pela expectativa das prendas, alegria pela festa que aí vinha e angústia porque algum adulto, na melhor altura da festa iria dizer: “agora já estás um homenzinho e tens de ter mais juizinho.”
Até parecia que os adultos não tinham passado pelas mesmas idades que eu.
Depois, já adolescente, comecei a notar que no dia seguinte ao aniversário, nada mudava relativamente ao dia anterior ao mesmo, nem a maneira de pensar, o que significava que o “crescimento” não directamente proporcional à idade.
Incrível como os adultos não compreendiam esta realidade, e queriam que, por força da minha idade, eu me comportasse de maneira diferente.
Tal situação era geradora de discussões, a que alguns com a mania de “metidos a besta” diziam tratar-se de «choque de gerações».
Isto é, arranjaram um nome para a sua ignorância.
Passei então a interrogar-me se isto de aniversários – excluindo as farras e as prendas – serviria para alguma coisa.
O meu cão, por exemplo, anda sempre bem disposto, faz o que lhe apetece, deita-se a qualquer hora, até parece que faz anos todos os dias.
Não acontece só com o meu cão? Ainda bem!
O certo é que, depois destes anos todos, lá que vou entendendo (acho eu), para que servem os aniversários:
Para justificar umas rugas, uns cansaços, umas dores aqui e ali, uns cabelos brancos, umas negas, uns esquecimentos, e mais um interminável rol de lamentações.
E também servem para contar o tempo que falta para a reforma.
A minha irmã acha que a pessoa que ela vê reflectida no espelho, não é ela, mas apenas o invólucro que a Natureza a obriga a usar, porque ela é o seu estado de espírito.
-É muito sabida a minha irmã. Também não admira, é mais velha do que eu.
Esta última afirmação coloca-me perante a face “desconhecida” dos aniversários: o envelhecimento e a velhice.
A “velhice” é uma palavra que só por si encerra toda uma panóplia de ideias e idealismos.
- Velhos são os trapos! exclamam alguns. – Quais trapos? pergunto eu.
A minha mãe era modista e não me lembro de ver lá em casa trapos velhos. Lembro-me, outrossim, de retalhos sem serventia, que todos os dias eram varridos e deitados ao lixo.
Não era por serem velhos. Era por não servirem para nada.
Por isso não sei bem o que pensar da velhice.
Sei que se for rico, sirvo sempre para qualquer coisa. Até sirvo para morrer e transformar-me em herança (é uma reciclagem como outra qualquer).
Se não for rico, mas se tiver saúde, também ainda me posso safar, pois posso ser útil para justificar a existência de lares de pessoas velhas.
Se não for rico nem tiver saúde, tenho o mesmo destino dos retalhos sem serventia que todos os dias caiam no chão da sala de costura de minha mãe.
Acho que vou jogar no Euromilhões.